quinta-feira

O meu tio Zé

O meu tio Zé não é meu tio. Nem primo. Nem casado com a nora do cão do gato da vizinha do lado. Não me é nada a mim, em termos relativos. E em termos absolutos, convenhamos, que também é pouca coisa.
Para que se saiba, José foi buscar o vulgar nome Castelo Branco aos aléns da sua ascendência (tâo remota que o próprio tem alguma dificuldade em situar). Disseram-lhe que era apelido da nata da nata, (ou créme-de-la-créme, se acharem mais chique). E ele engoliu.

Não sou nada ao tetra avô da outra do jardim do Campo Grande, nem prima afastada de um ente próximo nem o diabo a sete. Para falar francamente, Castelo Branco's há aos pontapés (com traço e sem traço, brasão ou chinelo, apostrofe e dois "l"s, ou sem "o" nenhum). Mas a minha família é do tamanho de uma ervilha e primos direitos tenho só um (que logo por azar já é meu primo direito do outro lado, não se acrescentando por isso nada com este parentesco).
Antes ainda tinham a delicadeza de me perguntar o que eu era à Luísa...
Depois veio o Tio Zé. A coisa já era crítica, mas desde que o pavão foi parar na capoeira, tornou-se infernal!
Podiam ao menos, só para aliviar, perguntar se sou alguma coisa à Inês Castelo Branco, modelaça gira que anda para aí toda descascada e abraçada á sua própria imagem nos cartazes de meia Lisboa. Mas disso não se lembram, pois não?
Pois bem, sem qualquer pretensão, ainda acho que sou mais parecida com ela do que com o José Castelo Branco – quanto mais não seja porque ela é morena e ele, de branco tem pouco, de castelo menos terá e é mais roto que uma rede de pesca.

Como diz a minha mãe... "tratem-me por Abecasis. Judia, mas decente."

quarta-feira

Vida urbana

20.43H. Acabei de ouvir a notícia de que os portugueses são o povo mais infeliz da Europa. Ena, eureca! Mais um daqueles recordes desastrosos que sistematicamente temos a desonra de ganhar. Taxas de alcoolismo, sinistralidade viária, acidentes laborais, mortalidade infantil... para nós é mato!
Parece-me bem. É preciso é estar no topo - nem que seja no topo do buraco, precisamente no ponto em que não é possível descer mais. Um lugar seguro, portanto.

Os portugueses são infelizes por tradição. Seriam infelizes mesmo que não tivessem razões, mas a verdade é que as têm. Falta-lhes tempo, falta-lhes dinheiro e falta-lhes, sobretudo, a qualidade de vida que um sorriso exige.

Eu sei que Portugal não é só Lisboa. Mas é aqui que eu vivo e é esta a realidade que me entra pelos olhos adentro todos os dias. A imagem de filas de trânsito, de dias cansados, de olhos em desânimo, de periferias que crescem sem qualidade enquanto a velha cidade fica deserta. Porque Lisboa, não é só Alfama, Bairro Alto, Liberdade e Chiado, Belém, Amoreiras... é uma área metropolitana que começa aqui e que acaba algumas Crel’s, Cril’s, IC19’s e pontes depois.
Tudo parado. E a vida a passar.
Pais que não vêm os filhos a crescer. Filhos que não vêem os pais a sorrir. Amigos que se vão perdendo na distância dos dias. Dois corpos casados que vão deixando de se encontrar por baixo dos lençóis.

Os portugueses são infelizes porque lhes falta humor e... quando dão por isso, também já lhes falta amor há muito tempo.
Não há disposição nem relação que resista a ordenados que encolhem cada vez que se toma banho, a contas que esticam todos os meses, a prestações de casa que têm o sabor áspero de uma corda ao pescoço vitalícia.
O pior, é que no fim de tanto aperto, tudo o que conseguem comprar é uma casa de merda, numa periferia de merda. Desculpem, mas há que tratar as coisas pelos nomes.
Caixas de fósforos empilhadas, em cidades habitadas por turnos. Mediocridade construída, onde todos os centímetros de betão valem dinheiro e o verde não importa nada. Nem o verde, nem a consequência social que se constrói.

Não sei se o dinheiro traz felicidade. As opiniões divergem! Os promotores imobiliários acham que sim... mas aquilo de que eles têm mesmo a certeza é que a felicidade alheia não lhes traz dinheiro algum. Talvez até estejam enganados...

Podia ser melhor? Podia. Não é preciso ser muito inteligente nem muito viajado para o saber. Podia-se requalificar a cidade existente em vez de a prolongar infinitamente, como a um polvo desorganizado, espalhando os seus tentáculos pelo território.
Podia ser melhor? Podia. Todos o sabemos. O que talvez muitos não entendam é a importância social que estes gestos adquirem, a diferença substancial que acarretam para a qualidade de vida da população. Para a sua... felicidade!

Mais grave ainda é o facto da construção ser como as pilhas duracel... dura, dura, dura... fica para sempre marcada no território. Dura herança legada aos que hão-de vir.

2ªfeira

Atravesso um corredor de sorrisos cinzentos, apanho "bons dias" mornos, como caldos que não posso evitar.
Vidas meio mortas, cruzadas 40 horas por semana. Talvez mais.

Olho para o computador. Espelho a preto e branco que não me reflecte.
Reflicto.
Às vezes não sei o que faço aqui.

Ninguém me conhece. E eu própria não me identifico.

segunda-feira

Na noite

os risos acendem-se e apagam-se ao ritmo das luzes. Cheios ou vazios (tal como os copos) conforme quem passa.
Passo por ti. Fujo. Não te vejo. Finjo.
As vozes falam e calam ao som da música, enquanto o alcool nos corpos balanceia a multidão.
Onda gigante, de gente pequena. Gente grande, que se disfarça.
Bebo um copo.
Sou engolida,
pelo tempo que passa.
Vejo-te ao longe. Uma cara mais alta, mais um encontrão.
Já não te encontro, onde antes te vi.

Perdi-me de ti.

Quanto mais te perco

E quanto mais te perco mais te encontro, morrendo e renascendo
e sempre pronto para em ti me encontrar e me perder.

Manuel Alegre
(gentilmente cedido por um Tubarão amigo)

Teledependência

Antes, as pessoas não tinham telemóveis... e não se perdiam!
Abriam a janela do carro e perguntavam a um alentejano qualquer o caminho para Freixo-de-Espada-à-Cinta.... e iam lá dar. Chegavam à praia e, no trigésimo terceiro guarda-sol amarelo do lado esquerdo... achavam quem queriam.

Os pontos de encontro eram marcados ao minuto, as noites cruzavam-se ao acaso e as campainhas tocavam-se ao chegar, para mandar descer uma qualquer personagem.
A paciência era maior, a ansiedade menor e não conseguir contactar alguém era tão natural que não enervava a quem quer que fosse.

Não sejamos facciosos.
O telemóvel dá-nos jeito... e dá-nos asas!
Mas também nos tira as pernas. Leva-nos a imaginação e, por vezes, até a liberdade. E o pior é que engana. Julgamo-nos cada vez mais livres, à medida que a dependência aumenta. Esquecer o telemóvel no carro é tão grave e improvável quanto deixar em casa o braço direito. Uma catástrofe.

Caímos no absurdo de estar sempre incompletos, de não desligar o telefone nem quando queremos em absoluto estar sozinhos, de escrever mensagens enquanto um amigo desabafa, de ansiar que o bicho toque mesmo estando no abraço da nossa cara-metade. O que nos falta?
Ou o que sobeja...


Hoje, o Miguel (nome falso) telefonou da casa de banho para a sala, a pedir papel higiénico (por sorte tinha levado para a retrete o seu tamagoshi!). Não bastaria chamar?? Queria ser discreto, alegou, mas alcançou tão somente uma série de graçolas variadas que algum pudor me priva de partilhar.

Já agora, meu querido Luís, que escreveste no teu blog Desejo Casar, uma hilariante dissertação sobre a Literatura da Merda... parece-me que os rótulos do roll-on, apenas lidos no trono, têm os dias contados! Agora, no reino valadares, joga-se à cobra e a outras cenas mais sofisticadas.


Grito

a plenos pulmões,
numa terra de surdos.

quinta-feira

21 de Novembro

No branco da tela, a minha alma derrama-se em tinta. Sobejo-me e por isso despejo-me. Divago, rasgo e colo, desembrulho-me em pinceladas que se possam pendurar. A alma agarrada a pregos, qual roupão pendurado atrás da porta.
Espalho-me. Com sorte, talvez ninguém entenda. Talvez me entendam, talvez sim.
Abraço-me. Desabraço-me. Entro em mim. Saio. Dispo e deixo a roupa pelo chão. Pela quarto, pela casa inteira.

Vou fazer uma exposição. Talvez me exponha. Talvez ... quem sabe?

O corpo virado do avesso, na Galeria Trindade.

quarta-feira

Tranque as portas.

Feche as janelas. Se vir um adulto a pedir, pode querer gamar-lhe o filho. Se vir uma criança a pedir, pode querer roubar-lhe o pai. Não se ria (não tem piada!). Eles atacam pela frente, pelo lado, por trás. Se lhe pedirem comida grite, se tocarem acordeão não vá em cantigas.
"Se reparar bem, normalmente nem tocam correctamente o instrumento".
Coitados... além de pobres têm que ser músicos! Condição sine qua non.

A polícia alerta.
Ser humano pode ser perigoso. Seja uma besta e prepare-se para o pior. Guerra é guerra.


Por favor, podem parar de mandar mails destes? É que eu prefiro correr riscos a ter sangue de barata a correr nas veias.

Obrigado.


Um homem, entre dois passos

Na rua, os meus passos apressados passam por um homem curvado e sujo. Vão dois metros adiante quando param ao som de um favor pedido. Volto para trás, a medo (esperamos sempre que nos ofereçam algo que não queremos ou que nos peçam o tempo que não tencionamos dar).
Pediu-me apenas dinheiro para comer qualquer coisa.
Fiquei a pensar no que lhe faria mais falta - uma sopa ou um sorriso que lhe diga que, afinal, existe.

Os adultos são crianças com os olhos fechados.

Nenhuma frase descreve tão bem o desencanto que tantas vezes encontro em olhares alheios, com esta de Almada Negreiros.
Como se o mundo fosse banal. E a vida?
Nunca o será!

Ena, ena, o Natal vem aí­...

Finais de Outubro. Atravesso o Atrium Saldanha num afogadilho típico de quem se dirige a uma única loja. Pelo caminho, uma visão kafkiana trava-me os passos: uma árvore de Natal! Pequeno ser de plástico, aparentemente inocente, agitando no ar braços de piaçaba e proclamando a notiícia de que o Natal vem aí­. Socorro!
Não sei se fui eu que perdi a ingenuidade ou se esta época mudou... Respondam-me, por favor.
Quando eu era miúda, achava que por esta altura a paz se instalava, tocavam os sinos, todos eram bonzinhos e até as senhoras das lojas exibiam o sorriso mais generoso do ano inteiro.
O tempo passou. E já não sei se fui eu que mudei ou se foi tudo o resto. Cresci. É certo que já não fica bem uma simpática lojista oferecer-me um lolipop e perguntar se já escrevi uma carta ao Pai Natal. Até aí­ chego sozinha.
Mas será que foram os palmos que me cresceram debaixo dos pés, elevando-me até este insatisfatório metro e meio, que me deturparam a perspectiva do mundo? Não sei. Se me puderem responder fico muito agradecida.
É que falando francamente (aqui entre nós, que ninguém nos ouve), portamo-nos cada vez mais como verdadeiros abutres. Quanto menos distância nos separa da quadra natalícia, mais a carne escasseia!

Em Outubro ainda a coisa vai mansa. Apenas um letreiro histérico aqui, uma arvorezita acolá, uns flocos de neve a despropósito pousados numa montra como se fossem pó. Tudo azul.
A partir de Novembro a coisa complica-se, mas ainda se passa bem. Fazendo jus à  sua raça de deixa-andar, o português tí­pico continua a julgar que o Natal ainda vai longe. Quando não.
Em Dezembro, a massa enfurecida ganha proporçoes verdadeiramente dantescas e atrevo-me a afirmar convictamente que nos tornamos em reais alarves.
O trânsito pára, abrimos a janela para mandar pastar o vizinho ("e, já agora, festas felizes!"), entramos aos cotovelões pelo shopping e chegamos a considerar seriamente a hipótese de fazer uma ou outra placagem no Colombo, para chegar primeiro áquela camisola super pop que fica mesmo a matar. Que nestas coisas, não matar morrer é morrer - julgam uns quantos que saem de casa de kit artilhado (botas de biqueira, tijolo dentro da carteira e um anelito mais robusto torneando o dedo).

Tudo isto me enerva. Enervam-me os católicos armados em Reis Magos e totalmente alheios à  figura de um menino em pelota num habitat despojado. Mas enervam-me ainda mais os ateus, agnósticos duvidosos ou assim-assim, que podiam, ao menos, ter o pudor da coerência.
Sim, que se Cristo não tivesse nascido nu e pobre também não teria precisado de presentes para nada! (Também não sei ao certo como é que o ouro, o incenso e a mirra terão ajudado, assim de repente, a enganar o frio, mas isso é outra história...).
A verdade é que o Natal é precisamente a antí­tese daquilo em que o transformámos. É mais tempo para o outro, maior paz de espí­rito, uma cama que se faz para que Deus (ou pelo menos o Ano Novo) possa nascer tranquilo.
É oferecer, sim, mas a nós. É essa a generosidade que se espera. A outra, embrulhada em papel de seda e de laço pomposo, é apenas uma maneira de dizer "pensei em ti".
Pena que já não pensemos em nada disso... Um presente comprado é um "... da-se! Já despachei mais um." A partir daí­, falta apenas arranjar mais 11 inutilidades que os futuros contemplados nunca comprariam.

Percebo agora o meu pai, que detesta o Natal. Vejo São Nicolau como uma personificação do Diabo (lá de encarnado se veste ele...) e ando mais agoniada que nunca. Respiro, enfim, de alívio quando chega o dia 26.
E não me venham com essa ladainha de que o Natal deveria ser todos os dias! Um dia por ano é mais que suficiente para gerar o caos. Chega... e sobeja.

Eu sei que Nosso Senhor (Meu, pelo menos...) nasceu cercado de cordeiros, burros, vacas e bicharada afim. Mas isso não significa que nos tenhamos que comportar como animais para estarmos mais próximos Dele.

Feliz Natal para todos!

terça-feira

Castelo Novo

O sino ainda não badalou as dez vezes e já a pestana impaciente se abre. Pela casa, cheira a pão fresco e a leite de jarro, acabado de ordenhar. Traz nata. Os narizes torcem-se, as caretas disfarçam-se com chocolate e açúcar... a avó vai engordando cada neto que passa pela cozinha.
O banho da véspera ainda está fresco, os cabelos já em barafunda, a roupa sobrevive à custa de remendos que nos arredondam os vértices do corpo. E veste-se de novo.
Esperam-nos riachos cheios de rãs, cobras e lagartos, salamandras de todas as cores, gafanhotos e libelinhas. Louva-a-deus.
Aguardam-nos ruas com histórias em paralelepípedos, gastas a par com as solas que por ali passaram.
E por isso partimos... polegarzinhos prontos a explorar o mundo!

Castelo Novo era assim e ainda é.
O tempo já raramente atravessa a aldeia, e quando passa, leva os arenitos das pedras velhas, mas não traz nada de novo.
A água escorre pelas mesmas poças, o milho subsiste por colher, as cabras continuam por alimentar. O mundo que sobe do sopé da Gardunha, em degraus à medida de um deus qualquer, continua por explorar.

Só as crianças mudaram.

No outro dia, em passeio, invadi uma pousada nova. Á volta da piscina, dois pais tranquilos embalavam um jornal em cima do peito já adormecido. E dois filhos, sem graça, jogavam game-boy a meio da tarde.

Não sei se senti pena ou apenas perplexidade. Porque os pais não lhes arrancavam o vício das mãos, para os obrigar a usar as pernas? A trepar, molhar, cair.... chorar, se preciso? Crescer!

Depois percebi que os pais de hoje estão demasiado cansados para ser pais e são demasiado ansiosos para ter filhos.
O que lhes vale, é que aos filhos também falta imaginação para ser crianças.

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