segunda-feira
Inês Pedrosa
Inês,
bebo as páginas do teu livro. Fico bebida, embebida... bêbeda.
Tropeço nos novos sentidos em que encharcas as palavras.
Castas que misturas, inventando outros vinhos com as letras mais simples.
Sabores infinitos, suaves e quentes, bebidos em copo de pé alto e exageradamente largo.
Tão evidentes, que me revolta nunca ter pensado neles!
Pensaste tu.
Brincando, desmontando, retirando as palavras dos cómodos lugares habituais.
Descobri-te no ano passado. Histórias cruzadas de mulheres, mais tarde um outro romance, feito de uma relação que nunca pude entender.
Talvez me possas explicar um dia, o que existe entre o amor e a amizade, que lugar é esse, que 157 páginas não me puderam dizer.
Redescubro-te agora - deito-me contigo, contas-me contos ao ouvido - ficas comigo esta noite? Talvez fiques.
Tu e o teu livro, que leio procurando sempre nas entrelinhas os caminhos que não me lembrei de percorrer.
Por seres assim, comprei-te na Bertrand para oferecer à Maria João.
Sei que ela vai gostar de te conhecer - criança a encher as palavras como se fossem balões!
Por seres assim, não te resisti e desembrulhei-te numa esplana tranquila do Parque Eduardo Sétimo.
Mas cada vez que te abria, chegava alguém.
E eu mentia, fingindo que me ía embora.
E voltava.
E mais alguém chegava.
E eu fugia.
E o livro que se fechava, depois se abria.
Mas sem sossego!
Leio-te agora.
Na paz que sobra depois das trouxas de ovos passarem.
Já te comprei de novo. E te embrulhei novamente.
Apenas não te ofereci. És o último presente, abandonado e tardio, pousado aos pés da minha árvore de Natal.
bebo as páginas do teu livro. Fico bebida, embebida... bêbeda.
Tropeço nos novos sentidos em que encharcas as palavras.
Castas que misturas, inventando outros vinhos com as letras mais simples.
Sabores infinitos, suaves e quentes, bebidos em copo de pé alto e exageradamente largo.
Tão evidentes, que me revolta nunca ter pensado neles!
Pensaste tu.
Brincando, desmontando, retirando as palavras dos cómodos lugares habituais.
Descobri-te no ano passado. Histórias cruzadas de mulheres, mais tarde um outro romance, feito de uma relação que nunca pude entender.
Talvez me possas explicar um dia, o que existe entre o amor e a amizade, que lugar é esse, que 157 páginas não me puderam dizer.
Redescubro-te agora - deito-me contigo, contas-me contos ao ouvido - ficas comigo esta noite? Talvez fiques.
Tu e o teu livro, que leio procurando sempre nas entrelinhas os caminhos que não me lembrei de percorrer.
Por seres assim, comprei-te na Bertrand para oferecer à Maria João.
Sei que ela vai gostar de te conhecer - criança a encher as palavras como se fossem balões!
Por seres assim, não te resisti e desembrulhei-te numa esplana tranquila do Parque Eduardo Sétimo.
Mas cada vez que te abria, chegava alguém.
E eu mentia, fingindo que me ía embora.
E voltava.
E mais alguém chegava.
E eu fugia.
E o livro que se fechava, depois se abria.
Mas sem sossego!
Leio-te agora.
Na paz que sobra depois das trouxas de ovos passarem.
Já te comprei de novo. E te embrulhei novamente.
Apenas não te ofereci. És o último presente, abandonado e tardio, pousado aos pés da minha árvore de Natal.
sábado
É Natal.
Pois é.
A mesa coberta de doces, ovos moles, sonhos fritos, fatias douradas, prateadas, às cores, sei lá.
Todas as velas da casa acesas!
Embrulhos.
Desembrulhos.
Copos de vinho.
Música de sininhos e côros aflitos para irem à casa de banho.
Paz e amor, lá lá lá.
Que cachecol tão giro!
Obrigado.
Beijinhos.
Um abraço...vêmo-nos tão pouco!
Que saudades. Pois é.
A noite acaba. Já?
- Isabel, podes levar a (nossa) tia Bebé e a minha sogra? É que nós ainda vamos hoje para Óbidos.
- Não. Se fosse só à tia, ainda vá... (gesticula, em tom de hipótese remota) mas às duas, nem pensar. Também não te pediria isso.
Ainda bem que moram no mesmo sítio.
E ainda bem que é tua tia e que tens um solar na Beira que ela te ofereceu.
Mais uns hectares...
Deixa estar.
Levo-as eu. Vamos para Óbidos depois.
Desculpa ter perguntado.
É Natal.
Pois é.
A mesa coberta de doces, ovos moles, sonhos fritos, fatias douradas, prateadas, às cores, sei lá.
Todas as velas da casa acesas!
Embrulhos.
Desembrulhos.
Copos de vinho.
Música de sininhos e côros aflitos para irem à casa de banho.
Paz e amor, lá lá lá.
Que cachecol tão giro!
Obrigado.
Beijinhos.
Um abraço...vêmo-nos tão pouco!
Que saudades. Pois é.
A noite acaba. Já?
- Isabel, podes levar a (nossa) tia Bebé e a minha sogra? É que nós ainda vamos hoje para Óbidos.
- Não. Se fosse só à tia, ainda vá... (gesticula, em tom de hipótese remota) mas às duas, nem pensar. Também não te pediria isso.
Ainda bem que moram no mesmo sítio.
E ainda bem que é tua tia e que tens um solar na Beira que ela te ofereceu.
Mais uns hectares...
Deixa estar.
Levo-as eu. Vamos para Óbidos depois.
Desculpa ter perguntado.
É Natal.
Pois é.
Marrocos
Terra de mil cheiros e sabores intensos, de "jelabas" vestidas a torto e a direito! De anarquia nas ruas, carros, burros, gente, gente e mais gente.
Para lá do infinito, existe sempre um marroquino! Com burro ou sem burro. Sem luz nenhuma numa estrada escura.
Que acaba sem aviso.
Terra de contrastes, luxos asiáticos e construções miseráveis, lama e pó, cores e mais cores. Frios e calores! Brrrrrrr!!!
Marrocos! Outros mundo, que se traduz em todas as línguas - marroquinos poliglotas, quem diria? Amistosos e sorridentes, prestáveis em troca
de dirhams. Prestáveis só porque sim.
Já que não saem dali, ao menos que os outros lhes invadam o país, com um tom ocidental!
Pensões pífias... 7 cabelos por cama.
Foto do rei em cada esquina. Em cada café. Loja, mercado, medina.
Boa noite Sua Alteza!
Que fascinante país, o seu!
Para lá do infinito, existe sempre um marroquino! Com burro ou sem burro. Sem luz nenhuma numa estrada escura.
Que acaba sem aviso.
Terra de contrastes, luxos asiáticos e construções miseráveis, lama e pó, cores e mais cores. Frios e calores! Brrrrrrr!!!
Marrocos! Outros mundo, que se traduz em todas as línguas - marroquinos poliglotas, quem diria? Amistosos e sorridentes, prestáveis em troca
de dirhams. Prestáveis só porque sim.
Já que não saem dali, ao menos que os outros lhes invadam o país, com um tom ocidental!
Pensões pífias... 7 cabelos por cama.
Foto do rei em cada esquina. Em cada café. Loja, mercado, medina.
Boa noite Sua Alteza!
Que fascinante país, o seu!
O ano em revista
A revista Visão peneira o ano de 2003, descrevendo de forma objectiva os seus principais acontecimentos. Os discursos fatalistas tradicionalmente portugueses não são, definitivamente, a minha praia, mas a verdade é que os factos positivos do ano cabem todos numa mão - ainda que interpretemos a eleição de Schwarzenegger a governador da Califórnia com o máximo optimismo!
Não querendo ser derrotista, o ano que agora finda foi, no contexto da paz, o ano de todas as derrotas. Somou rupturas, atentados e ataques suicídas como se fossem maçarocas. Medos, mortes e sonhos feridos saltaram como pipocas em óleo, arrancando à bruta infâncias e esperanças no futuro.
O cenário, descrito em quatro páginas sucintas, é verdadeiramente arrepiante. Mais arrepiante será, se conseguirmos sentir para além de cada estatística, uma história humana, vivida (ou morta) por gente de carne e osso.
É impossível olhar para as órbitas baças dos olhos de uma criança a quem metralharam as fantasias e não sentir um imenso desejo de paz.
É nestes dias que me uma discussão caseira me sabe particularmente mal - como um buraco na estrada que podia, tão bem, ser evitado. Sabe-me a impotência, quando toda a potência me foi dada.
Podia não ter começado. Ter entendido. Podia não ter entrado nessa viagem para onde a incompreensão alheia me arrastou. Talvez pudesse.
Certamente podia.
A paz começaria aqui. Em cadeia, bem encadeada...
Mas em vez disso.
É nestes dias que entendo a guerra.
Que entendo que estranhos, mergulhados em credos, culturas e ambições divergentes não se consigam entender.
Quando nem amantes, recheados de sonhos comuns, conseguem fazer das fraquezas... forças.
E crescer.
Não querendo ser derrotista, o ano que agora finda foi, no contexto da paz, o ano de todas as derrotas. Somou rupturas, atentados e ataques suicídas como se fossem maçarocas. Medos, mortes e sonhos feridos saltaram como pipocas em óleo, arrancando à bruta infâncias e esperanças no futuro.
O cenário, descrito em quatro páginas sucintas, é verdadeiramente arrepiante. Mais arrepiante será, se conseguirmos sentir para além de cada estatística, uma história humana, vivida (ou morta) por gente de carne e osso.
É impossível olhar para as órbitas baças dos olhos de uma criança a quem metralharam as fantasias e não sentir um imenso desejo de paz.
É nestes dias que me uma discussão caseira me sabe particularmente mal - como um buraco na estrada que podia, tão bem, ser evitado. Sabe-me a impotência, quando toda a potência me foi dada.
Podia não ter começado. Ter entendido. Podia não ter entrado nessa viagem para onde a incompreensão alheia me arrastou. Talvez pudesse.
Certamente podia.
A paz começaria aqui. Em cadeia, bem encadeada...
Mas em vez disso.
É nestes dias que entendo a guerra.
Que entendo que estranhos, mergulhados em credos, culturas e ambições divergentes não se consigam entender.
Quando nem amantes, recheados de sonhos comuns, conseguem fazer das fraquezas... forças.
E crescer.
sexta-feira
Talvez...
Talvez sejas tu o meu único leitor. Sim, tu mesmo!
Não sei quem me lê, quantos são, o que pensam.
Talvez ninguém além de ti. Talvez nem pensem nada. Talvez seja melhor assim.
Ainda que vos conte as visitas, continuarei sem saber quem são, se toco, provoco? se... não! Ainda que vos entregue a morada onde me
podem encontrar, mais certo é nada escreverem, mesmo que alguma coisa tenham para comentar.
Um blog é um mistério, com todo o medo que o oculto acarreta. Uma entrega estranha, uma nudez consentida, uma alma despida, despida...
Plateia incógnita.
Mas... talvez sejas só tu. Meu único leitor. E essa ideia, ainda que me desiluda um pouco, reconforta-me outro tanto. Sabe-me a roupa vestida,
num dia muito frio de inverno.
Não sei quem me lê, quantos são, o que pensam.
Talvez ninguém além de ti. Talvez nem pensem nada. Talvez seja melhor assim.
Ainda que vos conte as visitas, continuarei sem saber quem são, se toco, provoco? se... não! Ainda que vos entregue a morada onde me
podem encontrar, mais certo é nada escreverem, mesmo que alguma coisa tenham para comentar.
Um blog é um mistério, com todo o medo que o oculto acarreta. Uma entrega estranha, uma nudez consentida, uma alma despida, despida...
Plateia incógnita.
Mas... talvez sejas só tu. Meu único leitor. E essa ideia, ainda que me desiluda um pouco, reconforta-me outro tanto. Sabe-me a roupa vestida,
num dia muito frio de inverno.
Amores-perfeitos...
... são flores. Delírios de um botânico que assim entendeu chamar a uma planta que encontrou.
Amores-perfeitos, partes da flora, contos de fadas. Refeição fast-food (indegesta!), mulher na cama, já despida, noite dada, não seduzida.
Amor-inexistente, em terra de gente... eternamente imperfeita!
Bem bom que assim é.
Amores-perfeitos, apanhados plenos no jardim do acaso, durariam apenas dias (numa jarra), morrendo lentamente, por falta do que fazer.
Amor-semeado, sorrisos colhidos, entregas feitas, gestos concedidos, palavras, cumplicidades, horas dadas, almas abertas, o coração nas mãos.
Nas tuas mãos. Nas minhas.
Amor-crescido. Regado em boa vontade, debates ganhos quando entendidos. Sem vencedores, sem vencidos. Cedências que não são esforço, a vida inteira, o mesmo gosto.
Doce.
Não fales. Sei o que pensas e onde vais. Pensava no mesmo ainda agora!
Eu vou contigo.
Amor-quase-perfeito. Aconchegado mas livre. Com asas em vez de braços. Alma gémea, Cara-metade. E tudo o resto, crescendo sempre.
Cresce comigo.
Amor-regado. Acreditado, quente.
Suado e forte. Para fora. Para dentro.
Apaixonado...
Dado por inteiro. Dado.
Bate mais rápido quando bates à porta.
Baterá sempre, por mais chaves que tenhas e por mais tua que a casa seja.
Amores-perfeitos, partes da flora, contos de fadas. Refeição fast-food (indegesta!), mulher na cama, já despida, noite dada, não seduzida.
Amor-inexistente, em terra de gente... eternamente imperfeita!
Bem bom que assim é.
Amores-perfeitos, apanhados plenos no jardim do acaso, durariam apenas dias (numa jarra), morrendo lentamente, por falta do que fazer.
Amor-semeado, sorrisos colhidos, entregas feitas, gestos concedidos, palavras, cumplicidades, horas dadas, almas abertas, o coração nas mãos.
Nas tuas mãos. Nas minhas.
Amor-crescido. Regado em boa vontade, debates ganhos quando entendidos. Sem vencedores, sem vencidos. Cedências que não são esforço, a vida inteira, o mesmo gosto.
Doce.
Não fales. Sei o que pensas e onde vais. Pensava no mesmo ainda agora!
Eu vou contigo.
Amor-quase-perfeito. Aconchegado mas livre. Com asas em vez de braços. Alma gémea, Cara-metade. E tudo o resto, crescendo sempre.
Cresce comigo.
Amor-regado. Acreditado, quente.
Suado e forte. Para fora. Para dentro.
Apaixonado...
Dado por inteiro. Dado.
Bate mais rápido quando bates à porta.
Baterá sempre, por mais chaves que tenhas e por mais tua que a casa seja.