sexta-feira

Grito do Ipiranga!

O novo anúncio da Swatch é de uma estupidez atroz.
Lê-se em letras garrafais SAIA DA CASCA...
e depois espetam-nos com um relógio de patinhos!

Haja noção.

Meio calada.

De risco ao meio. Meia dose. Meia-leca. Meia meia. Meio vazia, meio cheia. Dividida. Uma pizza a meias. Meio-viva-meio-morta. Dás-me metade da tua tosta? Meia vida.

A vida inteira, se não se importa!
Meias nos pés,
Que não me sei entregar... meia.
Quero aprender?
Meio indecisa, talvez não queira.
Não quero. Não.
Antes assim.
Feliz inteira.
Toda dorida.
Existem sempre tantas fatias na vida!!

Não têmo a fome de uma fatia morta,
bocado de torta que me faz falta.
Fatia a fugir.

Pouco bom-senso? Que se lixe!
Ó que eu penso.
Sobra-me sempre o mundo quase inteiro p'ra me fazer rir!


Ensopada

Ontem choveu a potes.
Cats and dogs.

Desde o meu regresso das áridas planícies marroquinas que não via chover assim!

quarta-feira

Vagueei em ti.

Calcurreei o teu corpo, perdi-me nele, na tua pele, no teu cheiro, no silêncio imenso que nem um gemido ousou quebrar. Lembro-me apenas disso. De me sentir cheia, querer vazar-me em ti, da sintonia plena em que nada se diz. Quis que fosse assim. E porque não seria? Se era apenas um sonho, o meu sonho.
Em que te beijei sem que me beijasses, em que te agarrei sem que me agarrasses. Não me abraces, não me abraces.

Deixa-me apenas olhar para ti, para ver se não te esqueço quando acordar.

Viagem

Morreu. É verdade. Todos viram. Em directo. Da terra para o céu, para outro mundo, para lado algum, para onde Deus o entendeu levar. Da terra para a terra. Para a terra dele. Antes de tempo. Morreu.

O homem. Teria pais? namorada? filhos, provavelmente não. E daí, quem sabe? Amigos, muitos. Espaço em corações alheios, que fica vazio, infinitamente vazio, de um vazio absurdo e atroz. Impreenchível. Buraco negro. Tal como a noite, luz que se apaga. Vida que acaba. Morreu.

Dúzias de cretinos, em tom de grande (in)sensibilidade, prestam declarações para a rádio/tv (momento de glória!). O futebol ficou mais pobre. Um grande jogador. O Benfica, o Benfica. Golos que ficaram por marcar, coitado.
Abandonou no início, uma carreira brilhante. Abandonou o clube?


Abandonou a vida, meus caros, a vida!
Ou foi a vida que o abandonou a ele, pouco importa.

Importa o homem.

segunda-feira

O todo, cortado às postas.

É fácil ridicularizar as coisas. Tal como é simples exacerbar factos que são, na verdade, ridículos. Qualquer história é aquilo que se quer fazer dela. Qualquer conto se conta da maneira que se entende, sem se fugir muito à verdade. Mais exagero, menos exagero. É tudo uma questão de realce.

O que a comunicação social realça, é aquilo que o povo compra. E infelizmente, o povo ao qual todos pertencemos, só compra trampa. Compra o Colombo em vez de uma tarde de Inverno solarenga passada na praia. Compra BigBrothers em vez de um bom filme. Compra livros vazios cuja única virtude (não desprezível!) é a de pôr os portugueses a ler qualquer coisa!

Porque razão há-de um posto de rádio anunciar o argumento eventualmente interessante de um filme em que Meg Ryan aparece como veio ao mundo. Nua??? Nua. Porque raio há-de a mesma rádio publicitar um extraordinário conjunto de actores (José Pedro Gomes, Vergílio Castelo, Margarida Marinho...) liderado por um fabuloso encenador (António Feio), quando muito mais mediática é uma frase retirada do contexto em que um ministro aspira a que os tugas se fodam* todos?

Já não sei se é a mediocridade cultural generalizada que dita as regras dos media , ou se são os meios de comunicação social que se esforçam por nos manter nesta pobreza de espírito que lhes dá menos trabalho e mais dinheiro.
Quer dizer, saber... sei.
Usamos ou somos usados?
Somos usados, pois.

A comunicação social, em troca do enorme poder que lhe é concedido, podería ao menos contribuir para a formação de quem recebe a informação que transmite.
(Delírio...)


Nunca vi no Villaret uma peça menos boa e nunca vi uma representação em que entrassem José Pedro Gomes e António Feio que merecesse uma nota menor que excelente.
Por isso, para a semana vou ao Teatro!

Deixem-me... (r)ir!

* Nada como um palavrão para aumentar as visitas!

A rotina é isto...

São as voltas de um relógio em torno de si próprio. É chegar sempre Janeiro quando se acaba Dezembro. É sair de casa de manhã e voltar ao fim do dia. É haver sempre um adeus depois de um cumprimento. Um corpo que se abraça para se largar depois. Uma pescadinha de rabo na boca. Uma cadela (louca!) correndo atrás do lenço que lhe ataram ontem à cauda. É a roda de um velho carro que já fixou o caminho. É regressar à noite a casa e saber que hoje, como ontem, se janta de novo sózinho.
É acordar sem perguntas e adormecer sem respostas. Na dúvida de peixe ou carne, pedir um rissol misto. E viver assim, qual amster ás voltas numa rodinha sem destino. A rotina é isto, a rotina é isto, a rotina é is

quinta-feira

Figurativo ou abstracto?

Há sempre uma pergunta clássica no ar, quando digo às pessoas que... pinto.
Pintas o quê? Zzzzzz... penso eu. É uma pergunta natural. Mas sem resposta.
Tudo o que se diga, é sempre redutor (talvez ampliador, no meu caso!).
Perante a minha dificuldade em encontrar resposta segue-se um "figurativo ou abstracto?".
Comprovei estatísticamente que a resposta "figurativo" acarreta consigo uma certa desilusão. Ahhhhhhhhhhh...
(raciocínio: figurativo/objectos - objectos/maçãs - maçãs/natureza morta)
Ah... que giro.

Perante isto, ensaiei uma resposta pomposa! Tão pomposa que nunca me ocorreu dá-la quando me fazem a pergunta em causa.
"Pinto figuras em cenários abstractos.
Não estou ao serviço das coisas - uso-as.
Monto-as para transmitir o que penso e sinto.
E é isso que pinto."

(mal, se quiserem)

Para se fazer algo de abstracto, é preciso conhecer de tal forma o concreto que se consegue arrancar-lhe a figura, deixando-lhe a essência.
É aí que espero chegar um dia. Ou talvez não.
Todos os caminhos são válidos.

E, felizmente, compridos.

Só gostava de dizer, com toda a humildade, que nem tudo o que luz é ouro.
E nem, tudo o que é figurativo, tem de estar morto.

Quando aprender a pôr fotografias no blog, partilharei com vocês mais esse bocadinho de vida! Até lá...zzzz.

Ser... blasé

"Talvez nenhum outro fenómeno físico de mostre tão típico na metrópole como a atitude blasé ;
a atitude blasé resulta, primeiramente, de estimulações nervosas em rápido movimento, estreitamente subsequentes e fortemente discordantes a ponto de darem lugar a uma incapacidade de reagir a sensações novas com a necessária energia.
A essência do comportamento blasé está na insensibilidade a toda a distinção - mas isso não significa que os objectos não sejam percebidos, como acontece no caso da insuficiência mental, mas antes que o significado e o diferente valor das coisas (e, por consequência, as próprias coisas) são percebidas como não essenciais.

Ao indivíduo blasé elas surgem num plano uniforme e numa tonalidade opaca."

Texto de Simmel, sociólogo urbano, in "Metropoli e personalità".

Maldamores

Mal de amor raro se perde
É como nódoa de amora

Só com outra amora verde
A nódoa se vai embora.


Esta achei graça e escrevi, não fosse a memória trair-me...
Nem é que concorde... mas sempre dá que pensar.

quarta-feira

Light II

Hoje em dia, ser light , é como ser original.
A diferença pela diferença, a leveza pela leveza.
O que importa?
Não importa nada.
Nem uma coisa nem outra são sinal de qualidade.
Nem sinal do contrário, entenda-se.

Mas parece que tudo o que não é tão light ... assusta um bocadinho.
Abana. Incomoda?

Como se a leveza fosse, por si só, uma mais-valia. Alegria? Alegria.
E a profundidade o contrário.

Como se confessar amores, vertigens, sonhos, parvoíces, exigências, criticas, risos, caminhos, dúvidas... alegrias! fragilizasse.
Porquê?
Não somos todos tudo isso?
Haverá quem não pense?
Não.
Mas há certamente quem tente. E quem tema.

Dizia-me a Inês no outro dia "Não vivo para ser feliz, mas para sentir"
e acrescento
Tenho a certeza de que sentindo, sou muito mais feliz!


"Quem já passou por essa vida e não sofreu
Pode ser mais mas sabe menos do que eu.
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não dá porque tem medo de sofrer.

Ai de quem não abre o coração
Esse não vai ter perdão"


Vinicius de Morais.

terça-feira

Ele há traumas...

Fui, na minha hora de almoço, à Pull & Bear da Morais Soares. Às tantas, entraram no cenário três rapazolas, trolhas de uma qualquer obra próxima.
Quando um dos personagens, querendo experimentar um novo kit, pediu com naturalidade ao outro para lhe segurar o blusão, a loja transformou-se num palco de dispautério!

Que não, não era cabide. Era só o que faltava... da-se! Se queria um cabide, que o comprasse. Ora essa.
- Fogo!
- Fogo? Queimaste-te? Se te arde alguma coisa, apaga. Cabide, cabide? Deves estar a achar... Mas é melhor procurares noutro lado. Deves...

Já o primeiro estava enfiado, despido e vestido, no provador, ainda o segundo continuava na outra ponta da cena a contracenar sózinho este chorrilho de disparates.

Não estava a representar.
Estava genuinamente convencido de que o queriam fazer passar por parvo.

Cabide, cabide?
E eu na plateia, estupefacta.

Saí. Abandonei o espectáculo sem aplaudir.
A pensar que há gente com traumas profundos, a quem a vida deve ter tratado muito mal.
Ele tinha 30 anos e apenas um dente. É uma má proporção... eu também seria revoltada.


segunda-feira

Animador, não?

" A cidade, o território e o espaço em que viveremos durante as próximas décadas está já contruído. Não é fácil livramo-nos dele - não só a nível físico mas também conceptual."

Bernardo Sechi

Ainda que evidente, dói sempre ouvir estas verdades, vindas de quem sabe.

Natural!?

Sempre que ouvia uma alma desistente e conformada a comentar os ziguezagues da vida, arrepiava-se-me a pele... "As pessoas afastam-se, é natural". Natural?! Natural é ter sede, beber água do Luso, comer para não ter fome... respirar! Natural é dormir e acordar.
E é não ficar apeado, a ver a vida a passar em cima dos dias como se fossem carris - qual comboio inter-regional. Natural?! Natural. Uhuh.
Lento. Monótono. Quase parado.

Continuo arrepiada, mas já me vejo embrulhada num filme do qual jurei nunca fazer parte. Adolescente idealista, crente que ía mudar o mundo. Continuo crente - o mundo é que não muda! Teimosia (não sei se dele, se minha).

Dou por mim a ter conversas socialmente correctas, com as pessoas que me são mais queridas, o que me dá a volta ao estômago e uma impressão absurda de vazio.
Na semana passada desabafei! E descobri que era uma sensação comum. Sentida, mas não comentada, não confessada, vá-se lá saber porquê.
Fiquei aliviada.
Depois disso, o mundo mudou um bocadinho.

Não me digam que a vida afasta as pessoas.
As pessoas é que se afastam da vida... ou não?

sexta-feira

Adeus, 2003, até depois...!

Em 2003 andei a par com a conjuntura nacional e internacional!
Não, não andei em guerra. Não me senti a arder por dentro. Não atravessei uma crise económica. Não me escondi numa toca escura. E não abusei sexualmente de seres mais frágeis do que eu!
O ano que passou foi, simplesmente.... pior.

Na noite de 31 senti a leveza de quem deixa para trás pilhas de cadernos riscados, esgravatados... cansados.
Uma alegria imeeeeeeeeeeeeensa. Um sorriso quase infantil.

Senti-me criança, em plena Papelaria Fernandes - o olhar ansioso de quem espera novos cadernos, lápis estranhos, tintas e mais tintas, telas, canetas e um sem fim de... folhas brancas.

Um ano intacto, para me esbanjar inteira!
Desenhos e histórias, palavras infinitas, traços genuínos, pincéis sensuais a dançar no papel dos dias.

2004 é assim. Quase afrodisíaco...!

(tenho um fascínio por papelarias)

quarta-feira

Já que tenho a fama...

Descobri, mal entrei no novo ano, que para quem não me conhece senão de vista, transpareço em ares de dondoca! Dondoca?
Nunca me tinham chamado tal coisa e acho mesmo que é a última coisa que sou, mas enfim... rótulos, rótulos! Já estamos bem grandinhos para nos continuarmos a fiar nas aparências, não?

Pois é. Talvez. Pronto. Quem sabe. Vai na volta e é verdade.
Posto isto, resolvi ir aos saldos, que é para ao menos ser uma dondoca laroca!

É o mínimo que se exige de uma fútil que se preze - que se apresente com garbo e beleza!
Pois bem.
Não me estava nada a apetecer ser bela. Não, não optei pela versão monstro, detesto gente que faz questão de ser feia - estilo Rita Blanco. Apesar de quase homónima, não me identifico de todo com o estilo da senhora!

O que me apetecia realmente... era divertir-me! Comprar roupa que me fizesse feliz, vestir disparates, enfiar-me em cenas pop. Roupa mutável, apropriável, com fechos idiotas e fitas que eu pudesse puxar até onde eu entendesse!!

Sobra-me apenas uma incoerência - é que detesto coisas que não servem para nada e isso, é absolutamente válido também em relação aquilo que visto.
Uma fita que se puxa... serve para puxar... certo??

Ou errado. Isso agora não importa nada!
Como nada neste post importa.
Apeteceu-me escrever um texto estúpido. Pronto. Já está. Não custou nada.
Até foi giro!

(Tenho que fazer isto mais vezes!)

terça-feira

Chocolate à chuva

A vida é tal qual uma caixa de chocolates.
No meio dos bombons, há sempre uns maus, que nos deixam um amargo de boca...

Ainda assim, continuo a preferir saborear a caixa inteira!

Vícios urbanos II

Sou como tu, minha amiga. Não saberia viver sem tudo isto! Sem o bulício da cidade, sem os dias que passam a correr, sem mim... a correr entre eles.
Imagino o campo sem agitação nem arte e tudo me parece demasiado bucólico. Não me sentiría viva, habitando sem os filmes que me agitam, as exposições que me ensinam, os teatros, concertos, espectáculos que me fazem questionar o mundo... e me divertem!
As luzes e os passos cruzados, os recantos que descubro todos os dias, porque mudam ou porque eu mudo. Vejo o que ontem não vi.
Nada pára. Nem a cidade nem eu.

Não sei se é vício, ou apenas uma sede imensa.
Sei apenas que também preciso do campo como do pão p'ra boca, que só de água não vivo.
Do campo, da praia, de qualquer coisa rural que me leve daqui e me devolva a uma sensação de infinito. Que me reponha a calma aos dias.
Preciso dos sabores lentos, dos montes altos que se trepam, das distâncias que se percorrem a pé, enquanto os olhos passeiam por lugares não construídos. E de encontrar Deus, disfarçado na ponta dos galhos como se fosse fruta. Pisar-Lhe a terra. Ouvi-Lo cantar pela voz de pássaros que se cortejam.

Por isso saio e volto. Viciada no tudo e no nada, dividida entre as rodas de um carro e as de uma bicicleta, indecisa entre pisar ruas cheias de histórias ou deixar pegadas descalças numa areia lisa, sem história nenhuma.

É um dilema meu. Ou nem sequer um dilema, apenas dois banquetes necessários para me manter em equilíbrio a balança.
É um dilema contemporâneo, mas nem por isso recente.

O ideal era viver numa casa de campo, com portão para o Chiado... era Garret quem o dizia?
Talvez não o fosse para ti, minha querida, mas para mim... seria.

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