segunda-feira

Portas, janelas, fechadas, abertas... escancaradas!

Fechaste a porta da minha alma e do meu riso.

Abri, de para em par, a parca janela que me sobrou, pendurei-me nela, o peito no parapeito, as mãos a regar as flores, a plantar cores, a enterrar dores... e a pedir a Deus a Primavera.
"Quem dera!", dizia então.
E o peito, no parapeito, cheio de força e embebido em fé, foi olhando quem passava a pé, pela sua rua. E a graça, que de início não viu, tal como a janela... se abriu!
E a alma, que estava meio trancada, escancarou todas as portadas que encontrou. O riso abriu as portas e disse à tristeza "baza!".
E a vida, que se tinha ido embora, voltou a entrar e a sair a toda a hora, como quem se sente em casa!

sexta-feira

Boda Real

No sábado passado, o casalinho Sampaio lá deu nas vistas!

Naturalmente, não pela elegância da nossa Primeira Dama, que mais parecia um castanheiro no fim do Inverno... mas pela distância de metro e meio que conseguiu manter ao longo de toda a passadeira encarnada!

Pareciam dois estranhos a caminho do mesmo autocarro...

A vida?

A vida é aquilo que acontece
enquanto andamos a fazer planos.


(frase roubada, confesso...)

quinta-feira

Em cadeia

Dou-te o meu abraço.
Como te entrego o amor que em mim não me faz jeito. Nem existe.
Só se torna real quando sai.
Levo-te ao colo. Levo-te a ti, para que leves outro, que levará outrém.
Alguém me levará a mim. Então.
Como uma ideia qualquer de serviço, que a igreja defende mas pouca gente entende, como se fosse essa palavra submissa.

Em cadeia, olho por ti. São teus os meus gestos, para que aos outros entregues os teus.
Que a ti não te farão jeito. Nem existem.
Dou-te a mão. Porque a mão é coisa que ninguém dá a si próprio, tal como não nos podemos levar ao colo, nem auto-induzir força quando a não temos. Dá-me a tua.
Dou a minha aos outros, sempre que a tenho.
Tal como te entrego o olhar. Para que também tu te faças atento, olhes para fora.
Não olhes para dentro!
Alguém olhará por mim, se assim fôr.

Parabéns!!

Parabéns Porto!
Parabéns Portugal!!

E já agora... Parabéns Mourinho!
É que mais admirável que qualquer vitória da Taça, é a capacidade que o homem tem de manter o seu trombil inabalável mesmo nas condições mais adversas.
Incapaz da mais leve expressão de alegria...
Chiça!

quarta-feira

A bem da Nação

Na Câmara Municipal de Lisboa, passam-me pelas mãosn arquivos de edifícios antigos, contendo o processo dos mesmos, desde a origem.

Até 1974, em cada despacho se lê A bem da Nação.
A partir de então não se lê, mas subentende-se A bem da economia de um qualquer promotor imobiliário.

Não sou salazarista... mas convenhamos que as motivações eram mais nobres.

Chelas

Não parece... mas também é Lisboa.
Uma Lisboa esquecida, feita de gente que ninguém quer lembrar.

Chelas é assim. Uma soma de ilhas fragmentada, rasgada da cidade, rompida entre si.
E em cada ilha, um gueto. De gente que nasceu boa, como qualquer personagem do mito do bom selvagem, mas a quem a sociedade não permitiu ser mais nada.
Fruto de políticas sociais tão generosas quanto perversas...
Chelas marginalizou. Criou marginais. Colhe, todos os dias, o que plantou.

Em Chelas, o espaço público é o que sobra. Os prédios são objectos desalmados. Isolados. Que não formam quarteirões, nem ruas, nem largos.
Os passos são raros e os horizontes estreitos.
Quem ali vive, sobrevive, não vê mais nada. Nem é visto em parte alguma.

E mal pode destinguir a sua casa, por entre 20 edifícios semelhantes, 20 portas indiferentes, 600 janelas iguais. Feias. Sem cor, sem riso nem graça.
E sem calor nenhum.
Blocos gelados. Pessoas guardadas em caixas, infinitamente monótonas.
Monótonas, monótonas, monótonas, mon

Chelas é, no mínimo, revoltante.

O Essencial

Ontem na TSF:
Paul McCartney continua a achar que all you need is love!
Eu continuo a achar que Paul McCartney tem razão.

segunda-feira

2ª feira de chuva

Talvez por ser segunda-feira, o dia mais estúpido da semana inteira. Ou por o domingo ter corrido mal e passado sem sabor.
Talvez por o dia ter acordado cinzento, ameaçando ensopar-lhe de vinagre todos os sonhos. Sim, talvez por isso.
Vestiu-se de mau humor como quem veste uma camisola velha. Os passos pesados, os olhos cansados. Cara de segunda feira. A expressão mais estúpida da semana inteira.
Talvez.

Há dias assim.
Em que o dia chega ao fim e se descobre que houve uma má áurea no ar, que não foi só nossa. Talvez não seja só minha... talvez!

Bloco informativo

O encadeamento dos noticiários nunca deixa de me surpreender:

Primeiro anunciam que Bush caiu de bicicleta, sofrendo um pequeno golpe na mão direita.
E depois... lá comunicam a morte de mais 34 civis iraquianos.

Gamada

Na sexta feira gamaram-me o telemóvel! Cor de laranja, os números todos lá dentro, as mensagens mais queridas religiosamente guardadas.
Nem esperneei.

Primeiro, porque a culpa foi minha e só minha. Inteirinha! Dá-me gozo a negligência, viver despreocupada com as coisas.
Na sexta-feira fui roubada. E não me soube lá muito bem, é verdade. Mas por esse dia, houve 3000 dias em que que vivi confiante, sem que me tenham roubado nada.
Fui mais feliz assim!

Depois, porque me fizeram um favor. E, desde já, o meu bem-haja! Há muito tempo que não tinha um fim-de-semana tão sereno. Levararam-me o telemóvel, mas devolveram-me a paz. Libertaram-me. Dos outros. Do meu próprio vício.

E não me digam que bastava desligar o telefone, que não era preciso deixá-lo a noite inteira em cima da mesa à espera de ser roubado. Porque é mentira. É o mesmo que dizer a um drogado para deixar a seringa cheia a repousar.

Os telemóveis deixaram de estar ao nosso serviço, inverteram os papéis, tornaram-nos escravos. Dependentes. Drogados. Agarrados. Viciados.
Amputados quando os não temos.

Está-me a saber tãaaaaaaaaaaaao bem, esta perninha a menos...

Por fim, acho sempre que não adianta praguejar. O objecto de furto não volta e a nossa boa-disposição vai atrás. É dar poder de mais ao ladrão!

sexta-feira

Abrem-se cortinas...

... e das portas fechadas fazem-se janelas, abertas para o mundo!
Quase agradeço o que perdi, o portão da minha alma escancarado e dorido, as cartas de despedida largadas no correio, o passeio pela vida... que ficou por dar.

Quase. Quando vos vejo e vos sinto e abraço. E os passos todos que dou são paralelos aos vossos. São nossos!
São histórias cheias de sorrisos quentes, momentos de uma amizade pura, de descobertas deslumbradas, de entregas escancaradas em que os preconceitos se perdem e os sentimentos se libertam. Sem medos nem reservas.

Vocês. São paisagens.

Daquelas que se colam em álbuns de fotografias, marcando um momento crucial da vida, um salto em frente, um crescimento. Horizontes que hoje eu não teria, se o avião da vida não se tivesse enganado...

Vocês. São a melhor companhia de viagem!

Habitam no meu riso e no meu coração cheio. São palhaços a passear na minha cidade interior. Alegrias parvas, banhadas em parvoíces repletas de cumplicidade. São os abraços em que descanso, quando os meus braços se cansam de lutar.

.

Vocês. São assim. Janelas abertas. Descobertas!
Vocês são...?

Nós somos.

quarta-feira

Vou.

Meto as mãos nos bolsos, como quem embala os gestos.
A chave e uns trocos, o telefone desligado. Saio de casa assim, sem a carteira inútil a tiracolo.
Sem identidade. Nem destino, nem nada que me prenda os passos!

Vou.
Descobrir-te, Lisboa, em liberdade!
O caminho é incerto, mas a tua alma concreta e o Chiado parece-me sempre perto...!

Percorro o teu corpo, deixo que as ruas me levem, primeiro embarcada em avenidas, até que.
Me embrenho e te invado, toco-te os segredos mais bairristas, as tuas ruelas infinitamente íntimas.... onde habita, de tanta gente, a memória!
Vou, embalada pelo silêncio, porque hoje é sábado. E os carros que se cruzam não me tocam. Não me existem.

Vais-me contando histórias...
Ofereces-me personagens que me fazem sorrir, outras, calejadas, a quem a vida sorriu pouco. Roupa estendida nos varais dizendo adeus, flores caídas como estendais de todas as cores, as calçadas em quadradinhos a desenhar sonhos, os caminhos marcados por gerações de passos, as luzes trôpegas a lembrar tempos já idos, as tabernas repletas de homens esquecidos, de azulejos, de beijos, de copos e corpos embebidos...

És a minha cidade, mas sou eu quem te pertenço.
Sempre diferente. Como uma dança... que embala e nunca cansa!

Abraço urbano, quase quase humano.

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