sexta-feira

wash-machine

Hoje, dia 31 de Dezembro, foram lá a casa buscar a máquina de lavar louça
para arranjar.
Quando perguntei quando é que a traziam de volta, responderam

- levamo-la este ano e trazêmo-la no ano que vem.

Fiquei incomensuravelmente mais esclarecida.

terça-feira

Querido doismiliquatro

É inevitável esta nostalgia da despedida, ainda que eu saiba que entre o último dia de Dezembro e o primeiro de Janeiro, é apenas mais um pedacinho de tempo que passa e no fundo, nada muda. Ano novo, vida nova, dizem. Há a sensação de um baptismo que nos lava a alma e nos dá a oportunidade de começar tudo do zero. Mas é apenas uma ilusão. Os pecados estão lá todos, como nódoas numa camisola, os erros roem-nos à mesma a alma como traças... as alegrias e as lições, felizmente, também permanecem.

Não se vão embora as dores nem as cores. Ficam as amigas, tal como as feridas.
Subsistem as descobertas.
Cada ano que passa é uma manta de retalhos que fica. De sedas e serapilheiras cerzidas, debruadas com a cor que conseguirmos retirar em conclusão.

Poderia dizer que vou ter saudades tuas (ficar-me-ía bem)... Poderia, com justiça, dizer que foste lixado em certos dias ( e eu que contava tanto contigo)... Poderia. Posso. Dizer que foste cheio. Enorme. Gigante! E que por tudo isso, de propósito ou sem querer, às vezes à bruta, em luta... e outras ao colo e em braços, me fizeste crescer.
Gostei de ti. Gosto ainda. Faltam 3 dias para morreres. Dizem que as pessoas só morrem quando deixamos de nos lembrar delas. Suponho que com os anos se passe o mesmo.
Não me morrerás nunca, então.

E sim, vou ter saudades tuas, era isso que tinha para te dizer.

segunda-feira

então e o natal... passou-se?

perguntar a alguém se o natal se passou bem é tão descabido quanto perguntar a uma mãe que acabou de dar à luz se o parto foi bom, ignorando por completo se a criança nasceu viva.
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É que o natal não é um alvoroço que passa no dia 25.
É, em vez disso, uma viagem que começa.

quinta-feira

natal

Bom seria, que neste dia, não se trocasse nada senão abraços e sorrisos.
Sonhos, filhoses... (só para temperar a partilha). Um perú recheado, talvez.
Velas... estrelas! nada mais.
Que não se acumulassem na estante quarenta mil postais, assinados por ninguém, desejando boas festas em 4 línguas diferentes. Bom seria.
Se se gastasse menos papel (de um e de outro...). Menos laçarotes e cores, amizades de cordel, menos tempo em correria.
Se se fizesse menos lixo. Se inventasse menos luxo.
Se dedicasse mais tempo
ao outro.

Se ao menos o Natal, não se tivesse tornado no dia mais pagão do ano inteiro...
(dá-se, em vez da alma, o dinheiro)

Bom seria, se em vez de um top, embrulhado em papel de seda pardo
(com um grande laço)
viesses tu
num abraço.

não perca tempo

Não perca tempo julgando as pessoas
para que não falte tempo para as amar.

Madre Teresa de Calcutá

quarta-feira

Querido Salvador

Falámos meio em correria, no outro dia. Pouco mais do que um olá seguido de um adeus, que tal o fim-de-semana, bom... e o teu? e o casamento, foi giro?
Foi lindo, respondi-te. Riste-te. Como se eu tivesse largado para o ar a primeira banalidade que me veio à cabeça (é suposto falar destes festivais como epopeias brilhantes, quanto mais não seja pelo dinheiro que custam).
Mas não, não foi uma laracha atirada solta. E isso eu não tive tempo de te explicar. Já tinha a viola na mão e tinha mesmo que ir a correr para o ensaio, onde toco mal enquanto finjo que sei cantar.
Porquê? Terias perguntado, se ao menos te tivesse dado tempo. Mas isso é coisa que tenho sempre dificuldade em dar sem razão de relevo... faz-me sempre falta, nem que seja para o entregar noutra qualquer porta mais carente.
Porquê? Porque nunca vi um padre casar ninguém com tão desmesurado gozo. Nem uma noiva responder estou sim com tamanha convicção, perante a pergunta estás decidida...? Até nos rimos! Como rimos quando o pároco fez notar que ambos os noivos se tinham enganado, trocando a promessa de fidelidade por felicidade. E acrescentou que tinham toda a razão, já que a felicidade continha a fidelidade e muitas coisas mais. Como o diálogo, por exemplo. Levantou-se no fim o padrinho de baptismo do noivo, em tom de brincadeira se intitulando de "grande chefe", mas dando um conselho sério. Todos os dias, antes de adormecer, conversem. Conversem sempre! E não se esqueçam nunca de fazer dessa uma conversa a três. Com cristo. Ou com amor, que afinal é a mesma coisa, para quem não acredite no primeiro (e isto já sou eu que acrescento). Estava casado há quarenta anos. E disse que era muito muito bom, pintando as duas últimas palavras com aquela entrega que vem de dentro.
Porquê? Porque o coro era constituído por apenas duas vozes de fado, a embalar o destino de forma soberba e sorridente. Confiante.

Há sorrisos divertidos. E há sorrisos felizes. Já reparaste... como são diferentes?
O Convento de São Paulo estava cheio dos segundos, por uma razão apenas:
Respirava-se, naquela igreja, a sensação de um amor incondicional.
E isso é coisa rara nestes dias.


segunda-feira

Em francês

O mal do cinema francês é que nunca sabemos o que nos espera.
Um filme simplesmente soberbo, que arrepia de tão bonito:

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Les Coristes (Quarteto)

ou uma chatice de todo o tamanho, sórdida e doentia, com raríssimos diálogos que (felizmente) não acontecem em parte nenhuma do globo. Um filme destinado a uma pequeníssima minoria (que finge que aprecia?):


Histoire de Marie et Julien (Nimas)

quinta-feira

You wake up... what?

Numa semana com o insistente sabor de um mau momento,
um dia em tons de cinzento e um humor tão pardacento como uma alcatifa qualquer...
Nesse dia mesmo. Deu por si a pensar naquele porta-chaves de chapa que se vendia nas Amoreiras, quando o centro comercial abriu e a abertura de um shopping ainda era coisa original: You wake up the devil in me.
Mas ao contrário.

É que encontrou-o. E, só por isso, reencontrou-se.
Há pessoas que nos apagam. E outras, que pelo simples facto de existir, nos acendem.
E nos devolvem a paz.
Pensou.

Não o viu mais.
Mas o tom de cinzento
passou.

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