quinta-feira
paleta
Acordei de um só trago.
O céu, mais verde que o habitual, entrava pelas frinchas da janela...
A manhã, ao acordar, tinha-se esquecido de apagar umas quantas estrelas que, entretanto, passeavam entre as nuvens, desfiadas. Era ainda cedo, apesar da minha rara espertina, e, talvez por isso, os pássaros todos do bairro estivessem ainda embalados em silêncio. Só um pio ou outro, espaçado e distante, garantia que não era tempo de férias nem de emigração.
Um dia, a Teresa perguntou-me:
- porque é que alguns passarinhos escolhem viver em Lisboa?
Na altura fiquei sem jeito e até pensei que, de facto, nada daquilo que a cidade tem de bom (teatros, cinemas, exposições e uns quantos copos entre as vielas do bairro!) lhes era acessível nem importante.
Mas hoje percebi que há manhãs verdes que só Lisboa tem; que as ruas se vestem de cores folclóricas que não existem em mais parte alguma; que as folhas das árvores, quando caem, deixam os corredores da cidade pintados de amarelo;
e que a Água do Rio e o Mar são dois amantes azuis e eternos, daqueles que dá gosto ver.
Se acaso não houver nenhuma outra razão para um passarinho viver em Lisboa, todo esse colorido me parece, desde já, ser justa causa.
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O céu, mais verde que o habitual, entrava pelas frinchas da janela...
A manhã, ao acordar, tinha-se esquecido de apagar umas quantas estrelas que, entretanto, passeavam entre as nuvens, desfiadas. Era ainda cedo, apesar da minha rara espertina, e, talvez por isso, os pássaros todos do bairro estivessem ainda embalados em silêncio. Só um pio ou outro, espaçado e distante, garantia que não era tempo de férias nem de emigração.
Um dia, a Teresa perguntou-me:
- porque é que alguns passarinhos escolhem viver em Lisboa?
Na altura fiquei sem jeito e até pensei que, de facto, nada daquilo que a cidade tem de bom (teatros, cinemas, exposições e uns quantos copos entre as vielas do bairro!) lhes era acessível nem importante.
Mas hoje percebi que há manhãs verdes que só Lisboa tem; que as ruas se vestem de cores folclóricas que não existem em mais parte alguma; que as folhas das árvores, quando caem, deixam os corredores da cidade pintados de amarelo;
e que a Água do Rio e o Mar são dois amantes azuis e eternos, daqueles que dá gosto ver.
Se acaso não houver nenhuma outra razão para um passarinho viver em Lisboa, todo esse colorido me parece, desde já, ser justa causa.
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magia
Acreditas em fadas?
Ela ri-se. Não sabe se a pergunta a atordoa ou comove.
Enternece-se, diz que nunca pensou nisso. Mas de repente, mesmo sem querer, imagina um cem número de luzinhas a pegar nos seus braços e nas suas pernas e começa a dançar.
Apesar de não as ver, já não dúvida. Ri-se de novo, mas desta vez com os olhos.
E responde-lhe que sim, que nada daquilo que importa se vê
e daí toda a magia da palavra
fé.
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Ela ri-se. Não sabe se a pergunta a atordoa ou comove.
Enternece-se, diz que nunca pensou nisso. Mas de repente, mesmo sem querer, imagina um cem número de luzinhas a pegar nos seus braços e nas suas pernas e começa a dançar.
Apesar de não as ver, já não dúvida. Ri-se de novo, mas desta vez com os olhos.
E responde-lhe que sim, que nada daquilo que importa se vê
e daí toda a magia da palavra
fé.
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terça-feira
na engrenagem dos dias
Todas as madrugadas o despertador toca, ainda é noite, o corpo levanta-se, balança, cambaleia um pouco só. Os pés descalços na pedra fria da casa de banho, o banho, primeiro escaldante, depois gelado, num desejo de choque térmico que o acorde.
A barba, os dentes, o cabelo ralo a escorregar por entre o pente, tudo sempre por esta ordem e nunca outra.
O pequeno almoço, um primeiro gole de leite na boca, que invariavelmente lhe sabe mal. Vai para o quarto, veste a roupa, sem imaginação nem qualquer rasgo. Ontem, como hoje, amanhã será igual. Todas as manhãs pega no carro, de encontro à cidade, a tarde semelhante, apenas o sentido da marcha é inverso e o corpo mais cansado. O dia não lhe pertence.
Apenas as noites são suas, passeia o cão pelas ruas, sem as destinguir. Só muito de vez em quando se lembra e pergunta aonde vai. Nesses dias, recorda uma frase que em tempos ouviu, na rotina da missa de domingo, num domingo um pouco diferente em que ir à missa lhe soube bem
- às vezes, embrulhamo-nos de tal maneira nos dias,
que em vez de termos uma vida, é a vida que nos tem.
A barba, os dentes, o cabelo ralo a escorregar por entre o pente, tudo sempre por esta ordem e nunca outra.
O pequeno almoço, um primeiro gole de leite na boca, que invariavelmente lhe sabe mal. Vai para o quarto, veste a roupa, sem imaginação nem qualquer rasgo. Ontem, como hoje, amanhã será igual. Todas as manhãs pega no carro, de encontro à cidade, a tarde semelhante, apenas o sentido da marcha é inverso e o corpo mais cansado. O dia não lhe pertence.
Apenas as noites são suas, passeia o cão pelas ruas, sem as destinguir. Só muito de vez em quando se lembra e pergunta aonde vai. Nesses dias, recorda uma frase que em tempos ouviu, na rotina da missa de domingo, num domingo um pouco diferente em que ir à missa lhe soube bem
- às vezes, embrulhamo-nos de tal maneira nos dias,
que em vez de termos uma vida, é a vida que nos tem.
quarta-feira
Sul
Segue, rumo ao Sul. Há um lençol cor-de-rosa-céu a afagar-lhe o carro, em cada curva do caminho. As árvores da estrada, de um e de outro lado, dão as mãos, em arco. E ela passa, o carro passa, ela e o carro por baixo dos arcos feitos de mãos-dadas de árvores.
Sente: há, na Costa Viventina, uma paz líquida que a invade. Há uma bailarina que se lhe infiltra na alma e dança só para ela. Há borboletas que lhe dizem em susurro bem vinda a casa.
E há um passarinho pequeno, que a acorda em cada manhã e a leva à boleia na asa, para ver as praias e o mar.
Não duvida. Nasce mesmo uma bola de cristal dentro dela quando chega àquele lugar. Com cristais azuis, a flutuar-lhe pelo corpo. Sabe disso só porque sim.
Porque fica azul sempre que chega ali.
Sente: há, na Costa Viventina, uma paz líquida que a invade. Há uma bailarina que se lhe infiltra na alma e dança só para ela. Há borboletas que lhe dizem em susurro bem vinda a casa.
E há um passarinho pequeno, que a acorda em cada manhã e a leva à boleia na asa, para ver as praias e o mar.
Não duvida. Nasce mesmo uma bola de cristal dentro dela quando chega àquele lugar. Com cristais azuis, a flutuar-lhe pelo corpo. Sabe disso só porque sim.
Porque fica azul sempre que chega ali.
sexta-feira
o debate
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Pior que assistir a José Sócrates engasgar-se a cada duas frases do seu discurso,
foi ver Pedro Santana Lopes num atípico ataque de dislexia,
trocar as vogais do seu sermão:
- meus senhores, eu tenho 30 anos de boatos em cima!
quando queria, naturalmente, dizer boites.
quarta-feira
anti-campanha
Não sou de extremos.
Mas convenhamos que em Portugal, o centro político se apresenta extremamente mau.
Por entre bate-bocas da mais baixa índole tem sobrado apenas espaço para discutir pormenores que, na verdade, não importam a ninguém. Perante a actual situação que o país atravessa, discutir o casamento entre homossexuais ou a liberalização do aborto é tão absurdo quanto mandar uma bomba atómica para matar um coelho. E o pouco que se tem dito em relação à conjuntura económica e à situação social dos portugueses denota uma profunda falta de estratégia e mesmo ignorância.
Paulo Portas disse hoje, em entrevista à TSF, que os votos merecem-se.
É certamente com esta frase a ecoar nos ouvidos que irei votar.
Mas convenhamos que em Portugal, o centro político se apresenta extremamente mau.
Por entre bate-bocas da mais baixa índole tem sobrado apenas espaço para discutir pormenores que, na verdade, não importam a ninguém. Perante a actual situação que o país atravessa, discutir o casamento entre homossexuais ou a liberalização do aborto é tão absurdo quanto mandar uma bomba atómica para matar um coelho. E o pouco que se tem dito em relação à conjuntura económica e à situação social dos portugueses denota uma profunda falta de estratégia e mesmo ignorância.
Paulo Portas disse hoje, em entrevista à TSF, que os votos merecem-se.
É certamente com esta frase a ecoar nos ouvidos que irei votar.
terça-feira
metrópole
A limitação espacial apresentaria, por si só, uma ocasião muitíssimo propícia à coesão da comunidade, já que a limitação de espaço parece literalmente atirar as pessoas umas contra as outras.
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Mas não.
Acontece exactamente o contrário: em nenhuma outra situação os indivíduos se encontram tão próximos exteriormente e tão afastados interiormente.
Com a proximidade forçada, cansa-se e esmorece também o interesse interior relativamente aos seus próprios semelhantes.
Teorias sobre a cidade, texto de Marcella delle Donne (ligeiramente deturpado)
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Mas não.
Acontece exactamente o contrário: em nenhuma outra situação os indivíduos se encontram tão próximos exteriormente e tão afastados interiormente.
Com a proximidade forçada, cansa-se e esmorece também o interesse interior relativamente aos seus próprios semelhantes.
Teorias sobre a cidade, texto de Marcella delle Donne (ligeiramente deturpado)